Cortes em auxílios sociais podem gerar retração em cidades do interior

Corte de benefícios sociais ameaça economia do interior

Brasil

A interrupção de reajustes ou a redução em programas de transferência de renda e na previdência pode desencadear uma profunda desaceleração econômica nos municípios brasileiros fora dos grandes centros. Uma análise recente revela que repasses como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e as aposentadorias formam a espinha dorsal financeira de comunidades distantes das capitais, sustentando o comércio local e os empregos.

O peso dos auxílios públicos fora das metrópoles

Em um país com 5.569 municípios, cerca de 4 mil estão situados fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades interioranas, a dependência em relação aos repasses públicos chega a ser duas vezes maior do que a observada nas grandes capitais. No Ceará, por exemplo, enquanto os benefícios respondem por 22% da renda total na região metropolitana, essa fatia atinge expressivos 40% nas cidades do interior.

Para as famílias em situação de vulnerabilidade, esses recursos chegam a compor praticamente metade de todo o orçamento doméstico. Por ser direcionado de imediato à compra de itens básicos de sobrevivência, como alimentos e remédios, o dinheiro irriga instantaneamente o pequeno comércio, estimula a arrecadação dos cofres municipais e protege postos de trabalho.

Projeções apontam queda generalizada na renda

Simulações sobre o comportamento da renda sem aumentos reais nos benefícios apontam para um cenário drástico. Caso os valores fossem congelados ou reajustados apenas pela inflação básica — repetindo a política adotada entre 2019 e 2022 —, a renda agregada no interior do Brasil sofreria uma contração entre 6,8% e 10,8% em relação a um cenário de valorização contínua.

Essa contração gera um efeito dominó que afeta toda a cadeia produtiva, prejudicando comerciantes e trabalhadores que nem sequer dependem diretamente do suporte estatal.

Estados mais vulneráveis à retração

A retração econômica não atingiria o país de maneira uniforme. As perdas mais severas se concentrariam nas seguintes regiões:

Nos interiores do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, a renda total despencaria entre 17% e 18%. Já em estados como Amazonas, Sergipe e Pernambuco, o recuo estimado gira em torno de 15%. No Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a retração ficaria entre 10% e 13%. Por fim, em unidades federativas como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o impacto médio seria de até 6,5%.

Alavancagem da extrema pobreza

Além da desaceleração comercial, a falta de ganhos reais empurraria parcelas massivas da população para a vulnerabilidade social. Estimativas mostram que a estagnação dos valores teria a capacidade de atirar cerca de 2,7 milhões de brasileiros na pobreza fora das metrópoles, sendo 2,4 milhões diretamente para a faixa de extrema pobreza.

Em termos absolutos, a expansão da pobreza teria maior volume na Bahia (mais de 336 mil pessoas afetadas), seguida por São Paulo (263 mil) e Minas Gerais (251 mil). Estados como Pará, Maranhão e Ceará também registrariam aumentos superiores a 200 mil indivíduos nessa condição em cada território.

A preservação de ganhos reais nos benefícios sociais e previdenciários, portanto, vai além do amparo às famílias mais vulneráveis: consolida-se como uma engrenagem elementar para assegurar a sobrevivência da economia nas cidades do interior brasileiro.

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